sábado, 19 de agosto de 2017

Ode à Virgem das Dores

Choras tu, Mãe Dolorosa, pelo filho perdido, morto e escarrado.
Choras tu, Mãe das Mães, pelo filho encontrado, abandonado e elevado;
Choras tu, Mãe das Dores, pelos milagres assistidos e as virtudes anunciadas.
Choras tu, de mãos abertas e desencontradas, com olhos desesperados procurando a ressurreição.
Choras tu, mãe do Mundo, nas sete setas cravadas no teu peito, uma perante outra; uma por entre a outra.
Aceitaste a profecia no templo; tomaste o medo no caminho para o Egito; desesperaste as ruas no caminho inocente ao templo; sujaste as mãos do sangue do Cristo pelo caminho ao Gólgota; morreste por dentro quando Ele morreu na cruz, entregando-te a João o Amado, sabendo-te, mesmo assim, eternamente sozinha; desesperaste por dentro quando o sentiste frio nos teus braços; sorriste de pranto quando Arimateia, o homem rico de Jerusalém, ofereceu um túmulo para o corpo vagabundo e chagado do Emanuel outrora fruto do teu ventre, agora mártir e profeta de todas os tempos.
À Virgem das Dores: a humanidade ajoelhada ao coração cheio e assunto aos céus em corpo e alma.
Nos teus olhos vejo, chorando, as mães de todo o mundo que, vendo os filhos partindo, ficam, sozinhas, à espera de consolação que tarda e muito falha. 

És, assim, de roxo e azul, esperança.

Luís Gonçalves Ferreira
16 de agosto de 2016

solitude

Relembro as nossas fotografias; os eventos a que fomos juntos; as coisas que nos dissemos; as promessas que fizemos. Relembro-nos nos recantos que construímos e em todas as coisas que estão nos mesmos locais, após todo este tempo de meia-estação. Escrevo-te perante o silêncio que ecoa no regresso...
Mudei em todos os entretantos que surgiram; em todas as negações que provoquei; em todas as provocações que evitei. O discurso do equilíbrio, da temperança e do amor universal encontram-se nesta letargia que sinto, agora que esse tumor que é a saudade se fez gente dentro de mim.
São alguns minutos de solitude por dia que, como chuva de verão, secam corações insatisfeitos.
Era mais novo e escrevia sobre auto-diálise. Somos, por entre o infinito, os nossos medos. Sou os meus medos: restam dúvidas, as mesmas certezas e umas tantas barreiras invisíveis. 
 
Luís Gonçalves Ferreira
17 de julho de 2017

vírgula

A minha roupa,
Os meus sapatos,
O meu sorriso,
O meu amor -
O passado,

Luís Gonçalves Ferreira 
escrito 27 de julho de 2017

Sábado de aleluia

Agora que Jesus morreu pouco resta para além da roupa do meu corpo. Não está ninguém e existo sozinha. Restam-me o amado João e a caridosa Madalena. Sobra-me um leito cheio de angústias... a imensidão vazia de um ventre ainda esmagado pelo corpo morto do seu bebé.

Quando perdi Jesus, o meu mundo terminou e a coroa celestial do futuro significava pouco para mim. Agora não há anjo que me fale, milagre que me conforte ou esperança no meu rosto.

Desde que Jesus se foi, amarrado aos pecados do mundo, vivo só. João dedica-se a escrever tudo quanto viu e promete-me tatuar o seu mistério na humanidade. Madalena, dormindo ao meu lado, agarrando o meu pranto, diz-me que Ele há-de voltar. Sei, porquanto, que o meu filho, mesmo que volte, não é mais meu. Como nunca o foi. Relembro os pastores e os reis que o beijaram... simples árvore de onde nasce o fruto; memorizo a fuga para o Egito... simples escudo de um reino sem fortalezas. Vi-o crescer na certeza absoluta das muitas lágrimas que derramariam meus olhos... já cheirava o sangue que varreria Jerusalém e ouvia os gritos de dor que me acordam todas as noites.

Morreu-me um filho e apenas a esperança no sono eterno me descansa. Que chegue rápido, imploro e suplico. Encorajam-me os que batem à minha porta para que lhes lembre Jesus. Sinto-o perto nesses momentos em que abraço os estranhos de quem escuto Deus em sussurro.

Sinto raiva e dor; pergunto-me todos os segundos pelo que fizeram ao meu menino. 
 
Luís Gonçalves Ferreira

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Mea culpa



Quando nos ensinaram, na escola primária, a picotar desenhos jamais imaginei que, pelas sombras e os furos, crescemos; como naquele jogo que permite ganhar chocolates. O pior do amor é a forma como nos deixa ficar; lembro Anna Karenina, mas queria esquecer as estórias todas do mundo. Inércia, desgosto e vontades: como no jogo de picotados que, em criança, treinava a nossa concentração e abstração. Métodos significativos num poço para o futuro.
O pior do amor é a forma como nos abandona, talvez sozinhos que nem cães abandonados. O pequenino é querido e o grande imensamente desastroso. Não sei onde arrumar este jarro que tenho nas mãos; não decora nada e não se quebra.
Parti, de mãos dadas, olhando o automóvel a seguir embora. Tentamos ir pelos caminhos que conhecemos, bater às portas de sempre e chamar ajuda. A ferida ainda sangra para a bacia magenta que decora a pia da cozinha.
São quase duas da manhã. Após o barulho, e tomado o silêncio em golos de chá verde, lamento as mãos vazias, as memórias seletivas e a eterna sensação que, refletido no retrovisor do carro, ainda vejo um tronco semi-nu chegando perfume para me conquistar. Sedução que aceitei, querendo apenas ser encontrado. Pele tão quente e macia; casa feita projeto.
Corpo que enferma jamais se cura; lavemos as mãos, como Pilatos, no local onde cruzamos olhares, discussões, beijos e desilusões; onde tratamos o nosso futuro e as férias que nunca tivemos. Conduzimos tudo com beijos e química numa equação ao modo da física quântica. Mea culpa, no intervalo das coisas que fugazmente empurro à minha boca. Espero ter feito bem.
Não tenho sono e não está quem me implore para não adormecer agora.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

estranho-amor

O amor é uma coisa estranha que tem rabos e pés de cabra, mas também flores, jardins calmos e luares de agosto. O amor é uma coisa estranha, porque medeia o ódio, a simpatia e o desgosto. O amor é uma coisa estranha, pois afasta a razão e põe o coração a saltar na boca, como, de quando em vez, faz saltar lágrimas dos olhos.
O amor é estranho: como o vento e a imagem que vejo ao espelho, agora, emerso numa imensa solidão dos sentidos. O amor é estranho como essa chave sozinha, que rodou a fechadura, sentiu cheiro a gin barato, fugiu para a cama e percebeu que o amor é a potência mais incrível de todas as coisas que podemos sentir e discernir.
Não fosse o amor e seríamos energia lateira e tola, sem sentido, direccionada ao vazio e à estranheza por não ter destinatário. Não fosse o amor e deixaríamos de ser todas as virtudes que achamos ser. Sejamos amor.
 
Luís Gonçalves Ferreira 

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Jesus no jardim connosco

Depois de celebrar a Páscoa com Tadeu e os outros apóstolos, surgiu-me um súbito desconforto para falar com o meu pai. Desde que criança que seguia os meus instintos e procurava-o onde conseguia e apetecia. Naquele dia, para além de sentir a morte a rodear-me os poros, fui atraído para o Jardim das Oliveiras: local alto de Jerusalém de onde conseguia ver o meu povo. Pelo caminho, voltando pelo redor com Tiago, Pedro e João, lembrei a forma magistral com tinha sido recebido, montado num pequeno animal, por entre gritos e cânticos de glória. Nunca acreditei nos defeitos dos seres humanos, mas, a caminho do horto da paz, lembrei-me do quão ignóbil é amotinação dos outros; ser rei e ser carrasco, em segundos.
Procurei uma pedra e ajoelhei-me, perante ela. Sentia o meu fim próximo e procurei o meu pai. Queria entender qual a razão da minha escolha, se existia revés, por onde me deveria encaminhar, como poderia encarar a negação do Pedro - ali, ao largo, já a dormitar - ou a traição de Judas - que da mesa pascal partiu ao Templo, para me trair. Procurava-te, pai, e não te encontrava; como quem busca respostas para uma doença ou uma morte. Então, já sem esperanças, e jorrando lágrimas e suores de sangue, apareceu-me um anjo com uma luz dos braços. Era como eu, de pele escurecida do calor, mas com cabelos claros sombreados a ouro. Perguntei-lhe o nome, mas deu-me a mais perturbadora das respostas: o silêncio. Como o silêncio que oferecia à minha mãe, quando me procurou entre os doutores.
A minha angústia e temor pararam quando vi aquele anjo de meditação e resignação. Percebi, sem demoras, que o meu fim apenas tinha começado; que a glória seria eterna, para além da penitência e dos escarros que viria a suportar, num peso de madeiro, pelos mesmos que, pouco tempo antes, me tinham vangloriado. Senti, do lado direito, a voz do diabo, agora mais muda, após a Tua chegada. Foi-se embora e, por entre um sono e um estado de loucura, vi tudo o que estava para chegar: a cruz, a corda, os dados, a túnica, a coroa de espinhos, a cana verde e a carta de Arimateia, pedindo o meu corpo. Ouvi os berros da minha mãe, aos meus pés chagados, entre os cabelos da Madalena e o olhar sereno e atento de João, o meu discípulo amado.
Voltei ao local onde tinha deixado os meus apóstolos, deles chamei à razão, predizendo a fraqueza da carne, e ao largo ouvia a voz de Judas Iscariotes e os passos de cabedal dos soldados dos judeus. Senti um frio de morte e abandono, mas a força do cálice penetrou-me a espinha e me preparou o martírio. Tive receio, naquele momento, pela minha mãe; a minha querida mãe. Só dela me recordava, assim como de toda a Humanidade, lembrando-me dos seus braços estendidos em minha direcção, ainda criança. Eu sou virtude, mas sou também carne: como vós. 

Luís Gonçalves Ferreira

domingo, 2 de abril de 2017

O vos omnes



A caminhada triunfal que Jesus fez para abraçar a cruz, do Palácio de Pilatos para o Gólgota (que significa caveira), é projetada do berço do Cristianismo para o nosso mundo, especialmente durante a Quaresma. Diversas localidades portuguesas relembram a caminhada de dor do seu salvador, todos os anos, entre veludos e damascos roxos, numa Igreja que ostenta, mas sobretudo comove.
Trabalhar em procissões dá-nos uma perspetiva diferente sobre a vivência da religiosidade do povo, sendo notórias as clivagens e pontes entre a Igreja culta, institucional e dogmática, e as massas populares que a abraçam, modificam e disciplinam. A religião - e Deus, por inerência - parece ser uma simbiose entre todas as forças que se conjugam no quotidiano das orações e dos encontros; das mães que perdem os filhos; das doenças que se curam por diálise interior; das despedidas cicatrizadas com tempo.
As procissões que, nas suas ruas, repetem a última caminhada de Jesus Cristo para o Calvário, relembrando a dor de Maria ao encontrá-lo ferido e moribundo, são um catálogo quase perfeito das experiências que fizeram da Igreja Católica e Apostólica Romana uma realidade possível, dois milénios após a sua fundação: esse encontro rotineiro e emotivo entre os seres humanos (e as suas pequenas questões) com a imensidão do institucionalizado (cheio de grandes coisas e verdades universais).
O quadro da Nossa Senhora das Dores, São João Evangelista e Santa Maria Madalena, que teatralmente se abraçam ao longo das procissões minhotas, para depois se terem cruzado com Cristo, é, na voz do povo, chamado de "tribuna". Provavelmente, noutros tempos, aqueles personagens moravam, ao longo do ano, na tribuna da igreja, nos pés da cruz. Entre a rotina estática no retábulo-mor do templo e o personagens de carne e osso que desfilam cobertos de cetim e veludo, as figuras bíblicas e anjos provavelmente significam esse profundo mar de sensações que une o ser humano, crente e comovido, ao divino, numa esperança da alma em direcção à Casa do Pai; uma espécie de almejado encontro entre o espírito e o corpo, na rota da ressurreição.
Não é mais do que procurar ser visível pelo mundo do invisível; ser Deus sendo humano; ser, por isso, Jesus Cristo. Metamorfose forte e pesada, como nós, feitos Povo de Deus a caminho da casa do Pai.
Luís Gonçalves Ferreira

quarta-feira, 8 de março de 2017

Mulheres, poderes e sociedade.

Cresci rodeado de mulheres fortes e talvez seja esse o motivo pelo qual me revolta o adormecimento do feminino em relação ao masculino. Na minha casa foi sempre da mulher a última e derradeira decisão, porque as mulheres da minha casa sempre foram independentes economicamente.
Cresci, apesar disso, rodeado de histórias de violência e dependência: mulheres-mães, mulheres-avós, mulheres-trabalhadoras que gravitavam em redor dos maridos; deles sofrendo agressões físicas ou verbais; por eles controladas e oprimidas.
A minha casa sempre foi uma espécie de templo de Jerusalém pré-feminismo político: dois conceitos sobre o mesmo género, mas, em simultâneo, um retrato fiel das circunstâncias do feminino em relação ao masculino. A mulher vale-se pela independência que tem; pela capacidade de dizer não em relação ao homem; pelo estofo de viver às margens da opressão patriarcal que domina a sociedade.
Trabalho num ambiente de mulheres, onde quem governa os negócios é carinhosamente chamada de "armadeira". Nas procissões, quando querem falar com o/a responsável, chamam pelo feminino e nunca pelo masculino. O trabalho que eu desenvolvo, em conjunto com a minha mãe, tia, irmãs e funcionárias, é um local de dominação do feminino em relação ao masculino. Cada vez que me trocam o género pela função que ocupo sinto-me um pouco no lugar das mulheres que estão em cargos formatados para os homens.
Ontem, ao jantar, a minha mãe contava uma história que facilmente retrataria a desigualdade de género. Quando, em jovem, se dedicava ao negócio das fotografias, em conjunto com o meu avô, dizia-me ter-se sentido humilhada por um comentário de uma cliente: esta perguntava, em frente à minha mãe, se o serviço tinha sido mais barato por ser uma mulher a fotografar...
A minha mãe não politiza o amor que sente nem se encerra em macro-discursos sobre a humidade e os seus destinos. A minha mãe sempre falou sobre amor e foi com amor, dedicação e eficácia que, depois da morte da minha avó, conduziu os destinos dos negócios familiares. A minha mãe - que liga pouco à política, tendo votado toda a vida - sentiu-se ferida no amor que sentia por si e pela sua arte. Portanto, a importância do feminismo está para além dos supradiscursos de poder institucional; vive das consciências e dos silêncios discriminadores que contam a existência das relações sociais.
A minha mãe, as minhas tias, as minhas irmãs e outras mulheres, têm direito a dispor de todos os recursos necessários para ser o que quiserem ser, na mesma igualdade de circunstâncias que os homens. Educação, sentido de responsabilidade, formação profissional, experiência de vida e, acima de tudo, auto-confiança... É sobre a questão formativa - que combata o paternalismo institucionalizado e o machismo enraizado - que todos devemos reflectir enquanto comunidade e corpo cívico.
O pior mal do feminismo é o de não se empatizar com as mulheres, porque se preocupa (quase em exclusivo) em discursar apenas para os homens. Agora, como no início do século XX, as mulheres vivem numa dupla tensão: com os homens, para os quais dialogam politicamente, e com as mulheres, força de massas da qual necessitam para se ouvirem na multidão.
O dia 8 de março faz muito sentido, especialmente num tempo em que, nos Estados Unidos da América, preside um homem que venceu votos com discurso de ódio às mulheres. O dia 8 de março faz todo o sentido quando a vergonha se perde na fruteira da demagogia.
Pelas mulheres e pelos homens, mas sobretudo pelo todo que somos. Pelo amor e pelo respeito.

Luís Gonçalves Ferreira

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

São Miguel, Açores

 
Do alto do Miradouro da Boca do Inferno, na ilha de São Miguel, não resta absolutamente nada entre ti e o mundo: sobram os elementos da natureza e o silêncio sozinho da consciência. Dali do alto entendes os Açores e a sua orfandade oceânica; a Ilha dos Amores significa um paradoxo isolado no meio do mar; sítio onde se cultivam sonhos com o limite da linha do horizonte.
Sinto que demorei a pequena vida que tenho para ali chegar e sei que demorarei outro tanto para lá voltar. Chegou na altura certa e soube, como se fosse equação calculada, que conhecia os Açores antes de lá ter chegado, porque eu sou como os dias que os Açores me ofereceram. Os deuses brincam com as estações do ano nos Açores como jogam com as nossas vidas.
O alto do Miradouro da Boca do Inferno resume audácia dos açoreanos, a sua clarividência resistente, o seu isolamento necessário e uma especial estranheza ao que lhes chega de fora. Nós, continentais, apesar de sermos portugueses como eles, vimos "de fora", como me disse a senhora que faz queijos todos os dias de manhã para vender aos estranhos que lhe entram pela porta. Tenho a certeza que, aos olhos da senhora que faz queijos todos os dias, não há nada mais bonito no mundo do que as Furnas e a São Miguel onde vive. É justo e, mais do que isso, verdadeiro.
Confesso-vos que não sei se existe sítio no mundo mais bonito do que São Miguel, porque me falta muito mundo para ver, mas sei-vos dizer que a ilha que vi, mesmo que de forma resumida e apressada, é certamente o sítio mais bonito onde os meus olhos pousaram. Esperei vinte e sete anos para conhecer a chuva, a água quente, as piscinas naturais, a florestação exótica e húmida e a imensidão de verde dos Açores. Esperarei outro tanto para lá voltar e conhecer a Terceira, as Flores ou o Pico ou uma das outras oito ilhas que me faltam. Esperarei o tempo que for necessário para rever paisagens naturais incapturáveis por lentes tecnológicas.
O que existe nos Açores é apenas sensível pela presença física. Ali entendi que tudo o que fotografamos é uma mentira; ou melhor, que a fotografia é um resumo tímido e mitificado da verdade perante a realidade que os sentimos eternizam à memória.
Há Açores dentro de mim. Agora mais do que nunca. 
 
Luís Gonçalves Ferreira

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017


Há um par de dias, quando estava a trabalhar no meio da herança que nos deixaste, contou-me um vendedor mais pormenores sobre ti: a inteligência dos negócios misturada com a mãe que sempre foste. 
Mãe para nós e para todos aqueles que colheram da tua bondade.

Não me lembro do teu cheiro, mas ainda me emociono quando tento encontrar o teu rosto. Hoje já não existe aquela saudade esfomeada que outrora em mim habitou; hoje há calma, avó Júlia. Serena calma como o mar de Inverno.

As noites de 20 de janeiro, dia de São Sebastião (padroeiro da casa do bisavô), ainda continuam frias. Noites geladas com aqueles dias quantos os anos cujas duas mãos já não chegam para contar.

Ias adorar ver os olhos azuis da Francisca...

Passaram doze anos desde que a presença mais renovadora das nossas vidas partiu, deixando-nos o império da sua memória. Entretanto, remendamo-nos no melhor que sabemos ser em recordação do profundo que há de si entre nós.

Luís Gonçalves Ferreira 

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Estado da História: desafios e observações


Ao historiador contemporâneo é lhe pedido, antes de mais, que produza observação histórica de forma problematizada e questionadora sempre baseada em documentação coesa, numa metodologia arreigada ao possível (quanto ao tempo e aos objetivos), assente em questões e hipóteses. O jovem historiador ou investigador que hoje se tente introduzir aos meandros do conhecimento humano, pela lente da observação do passado, avança-se num anacronismo inato que, sendo a principal circunstância do seu labor (o olhar é sempre do presente para o passado), é fobia constante da contaminação intelectual do seu trabalho. O historiador sente através dos documentos que observa, pelas pessoas que narra ou pelos pensamentos que desenvolve. Ter medo da contaminação é não aceitar as características da sua profissão; é não se desenvolver num conjunto submerso de ideias, pré-conceitos e conteúdos, desde logo emanados da instituição que o forma, dos pares que o pressionam, dos livros que leu e das brilhantes exposições que ouviu. Como ciência humana e social, a História confunde-se com as caraterísticas humanas analisadas por outras ciências, como a Medicina, Direito, Psicologia, Sociologia ou até pelas ciências humanas: medos, neuroses, tensões, influências, socializações em gerações de colegas e instituições, simbioses ou compensações atómicas...

Professores, unidades curriculares e objetivos formativos das graduações, pós-graduações, mestrados e doutoramentos em História, fazem-se de uma constante confrontação entre a história do passado (arcaizante, descritiva, positiva, dependente do monolítico do documento escrito), arreigada às histórias dos séculos cronológicos e das três idades, com uma história do futuro, necessariamente globalizadora, policêntrica e artificialmente democrática e mundial como o sítio onde o historiador existe. Esta dupla tensão – entre a disciplina e o tempo do historiador – produz observações diacrónicas numa postura que duvida, que tantas vezes resvala para o questionamento idiossincrático da História como ciência autónoma, com método e objeto próprios.

Para além de exigências de caráter prático, pede-se ao jovem historiador que seja culto como os seus antecessores, mas que esteja a par de toda a informação galopante que circula no mundo académico: lendo muito em pouco tempo. Que atenda aos clássicos - da história da História (de todos os tempos aos atuais), das revistas, dos Annales, do pós-68, da pós-modernidade - mas também que saiba acompanhar os portais que democratizam o acesso aos artigos científicos – aquelas gaiolas douradas que almejam a autenticidade e os quinze minutos de fama da pop art.

Vivemos, por isso, escravos da criatividade, mas sobretudo das notas de rodapé. Somos escravos do medo do pastiche, numa obsessão pela construção do novo, sendo empurrados para grupos de estudo que em nada simpatizam com interesses individuais, mas em tudo servem a ciência dos campos por tratar. Almejamos em ser Le Goff, Bloch, Catroga, Mattoso ou Cruz Coelho. Queremos ser tudo num acesso de nada: entre professores que não ensinam (falta-lhes tempo e veia) e alunos que não aprendem (simplesmente desconhecem vantagens em ler, estudar e ter mérito numa sociedade abundante em tudo e construtora de muito pouco).

À História cabe a participação, intervenção e politização. É, antes de mais, a sua circunstância, pois é produto de olhares pessoais, integrados num tempo e num espaço, emersos em observações particulares, vítima de medos e incómodos. O historiador escreve sobre os aspetos que lhe provocam emoções racionais num conjunto alargado de palavras que lê e cita, por orientação de um condicionamento natural de apenas encontrar o que procura.

O historiador é automaticamente vítima de si e do seu contexto. Então, que assim se assuma e assim sirva a sociedade; que saia dos colóquios e dos metros quadrados do seu gabinete, sala de aula e casa! Enquanto nos enjaulamos condenamos a nossa disciplina esta dupla tensão em que (sobre)vive: consigo mesma, porque o historiador possui um medo obsessivo da cópia e repetição; e com os outros, pois a sociedade desacredita que a História (assim como a Filosofia ou Antropologia) possa contribuir com algo de fundamental para o aprimoramento da existência humana.

Porquanto, a História e o historiador são como templos helénicos: sobram belas colunas eretas como vestígios pétreos do passado glorioso para o qual eternamente nos voltamos no sentido acalentar as nossas frustrações.
Luís Gonçalves Ferreira 

domingo, 8 de janeiro de 2017

Abandono-me à solidão

Debruço-me sobre a tristeza, sendo-me
Encontro-nos na estranheza.
Lembro saudosamente os outrora corpos fundidos, por
Sorrisos desmedidos.
Esbarro no olhar à sorte e perco-me no desalento.
Um silêncio.
Quero e não encontro -
Somos e nem existimos.
Vida sozinha,
Vida só,
Vida.
Sempre interrogando, sempre duvidando, sempre
Sozinho nas alíneas do pensamento.
Sina das mãos lidas,
Sol de inverno - numa primavera de mil flores.
Desculpo-te por seres demorado.
Depois de quente, a pele ficou tépida,
Frouxa, e agora?
Eis-me triste e só,
Como sempre sou.

Luís Gonçalves Ferreira

A Soares, pela liberdade.

Podemos criticar tudo: o buraco da Fundação, o caciquismo, a dificuldade em deixar o sistema por si montado em paz. Ao contrário de nós, que nos sentamos num sofá e mandamos postas de pescada livremente, Mário Soares lutou contra um monstro: o fascismo. Nunca teve medo, até ao final da vida. O país não lhe deve nada para além do respeito. Respeito por nunca ter tido medo.

Numa altura em que somos todos órfãos de sentido crítico, consciência autónoma e pensamento livre, talvez seja essa a mensagem de Mário Soares para o ano novo, pela glória da morte. A democracia só serve enquanto nos servir; agora que morrem, na velhice, os últimos obreiros do Portugal democrata, talvez seja tempo de pensarmos sobre a nossa existência democrática.

Apesar de não concordar com a maioria do seu pensamento político e económico, devo a Mário Soares a liberdade de o expressar livremente.

A democracia não tem preço, mas Soares teve-o; como todos nós.

domingo, 20 de novembro de 2016

Meados de maio: o mês das flores

Olhei e vi-me ao espelho. Desejei tantas vezes que chegasses até mim que me perdi nos entretantos. Encontrei-me na universidade, nas casas novas que compunha e nas ilusões que cultivava. Invejei muitos amores ao meu lado: histórias contadas sobre as férias passadas juntas. Quando seria a minha vez? 
Chegaste e nem dei por ti. Senti que te esperei a vida toda, mesmo quando, entre sofrimentos e lágrimas, me jurava voltar a amar. Entraste e nem convidei. Quando reparava já sentia o teu cheiro colado à minha pele e boca encostada na minha.
Abri os olhos e achei-me adormecido: os pés, as mãos e todo o corpo eram calor. Fomos para a serra e para junto do mar: conhecia apenas as ondas pelos sofrimentos aliviados; contigo conheci-as pelas alegrias que traziam. Castelos, brisas e ventos. Sopros. Ensinaste-me sobre o mar. 
Desejei que chegasses. Tantas vezes. Escrevi, outrora, que sentia a pele tão quente e achava ter chegado a minha hora. Chegou. Tenho os nossos rostos na minha cabeceira, o teu peito na minha almofada e a tua pele que há em mim.
Não teria chegado tão longe se não fosses tu. Não teria chegado tão perto se não estivesse partido de tão longe. 
Coração e pedra. Mágoa e desespero. Sorriso e amor: eis o retrato que mora ali, no espelho.

Luís Gonçalves Ferreira 

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Desigualdade das mulheres

Na Praça de Alegria (RTP1), há pouco, discutia-se a igualdade de género. O painel de discussão era composto por dois homens (o apresentador e um convidado) e duas mulheres (a apresentadora e uma convidada). A conversa foi absolutamente monopolizada pelos homens e estes começavam quase sempre a responder primeiro do que elas. Enquanto isso, concluíam que as gerações mais novas, já "consciencializadas" em relação às disparidades de género no acesso ao emprego (por exemplo), sofreriam menos a discriminação - areia. 
O problema, a meu ver, reside precisamente na desigualdade que acontece no silêncio, entre a argamassa que monta os tijolos; na mulher que deixa o homem falar primeiro; nas mulheres que não manifestam opinião política e deixam que os homens pensam por elas, intervindo em seu nome. Não acredito que os homens não possam ser feministas (como a Mariana Mortágua), mas tenho uma crença profunda de que o processo de mudança tem que ser iniciado pelos discriminados. A sua voz é mais pura, mais conhecedora e poderá, realmente, fazer encontrar o outro desrespeitador na dimensão do seu desrespeito; comunicando, portanto. É a ferida da diferença que provoca a reação face à maioria que a renega. 
Estaremos numa fase mais profunda da desigualdade das mulheres no acesso aos direitos económicos, sociais e políticos, onde o problema está de tal forma enraizado que é no machismo "internalizado" que reside o problema? Ou estaremos, finalmente, a enfrentar as estruturas da questão? A resposta? Educação, educação, educação.

Luís Gonçalves Ferreira 

domingo, 13 de novembro de 2016

liberdade, Gisela João e o tempo em que estamos*


Gisela João,  Labirinto ou Não Foi Nada 

Sou testemunha de um tempo - feliz, é certo - em que, no canal aberto da televisão nacional, um programa de transformismo vence audiências. Sou do tempo - feliz, é certo - que, após uma besta quadrada fascista ter vencido as eleições na América desfeita, o fado me congratula com alegria. Passado e futuro; aceitação, verticalidade, tolerância e amor. Só amor. Sou do tempo - meus netos, filhos e anciãos da memória - em que o amor vencia nas ruas e nos palácios de gelo, enquanto o ódio ganhava votos no fundo de uma urna. 
A democracia cai nas ruas da amargura; as pessoas não. Enquanto houver memória (que Deus guarde a minha), e se tudo mudar entre uma guerra ou um caos de fome, a cultura dirá aos vindouros, em jeito de recordação, que vivemos um auge bonito de aceitação; um culminar absoluto de beleza no ser quem se quer ser. 
Olhamos tantas vezes para o passado, procurando glórias e impérios, esquecendo que o maior triunfo é o nosso presente. Presente rima muito bem com felicidade e aniversário e tudo de bom que isso significa. 
Quero nunca esquecer deste tempo, mesmo que as trevas se inaugurem em diante. É uma espécie de sonho, de júbilo, como da saúde súbita de um doente terminal se tratasse. 
Espero errar-me mais à frente. Que os meus netos vejam, no seu tempo, o género contar para muito pouco. O sexo nasce-nos, mas tudo o mais não. Sonho com um tudo mais que seja muito pouco.

*O título inicial era, simplesmente, liberdade. 

Luís Gonçalves Ferreira 

Sobre a eleição do Trump

Queria escrever algo sobre como é arrepiante acordar ao som de uma vitória de Donald Trump nos EUA, mas não consigo denunciar mais do que o meu lamento. Resta-nos acreditar na democracia americana, no controlo e interdependência de poderes. 
Acordar com a vitória de Trump é o similar ao despertar com o Brexit. Não reconheço este mundo em que vivemos, que faz do ódio, da xenofobia e da intolerância realidades institucionalizadas. O voto popular, ferido de morte pela crise, baba-se perante a bandeira de um prato de comida. Algo de errado se passa connosco: ou perdemos a racionalidade, a inteligência e a sabedoria sobre o poder do voto; ou sistema prova que não presta. Contudo, não somos americanos e, pela leitura do poder representativo, a eleição americana não nos diz respeito diretamente, como não cabe aos japoneses interferir nos factos que lhe empobrecem a bolsa de valores. A democracia permite a ascensão de ditadores, como se fez prova ao longo da História. 
Não sei o que é dormir com medo, como sabem, certamente, os refugiados que cruzam as nossas fronteiras de papel; ou os mexicanos que voam pelos desertos de arame farpado.
Talvez a sociedade ocidental precise de ser perturbada pelo medo. Eis o início: abram os vossos olhos, desviem-nos dos vossos umbigos, encarem os vossos pares e vejam, atentamente, o lugar onde hoje, em conjunto, chegamos.

Luís Gonçalves Ferreira 

Pedras que falam*

Foi numa quinta-feira, no centro da cidade, junto à inscrição romana à deusa Ísis, que assistíamos a uma aula de Epigrafia. No mesmo dia e pelas mesmas ruas, centenas de estudantes trajados (e por trajar) exibiam os seus gritos e marchas, carregando litrosas e misteriosas misturas. Entre veículos municipais de limpeza, barulhos de praxe e silêncios ocasionais, prosseguia a aula, cautelosa e curiosa, como sempre. 
Eis que, pelo silêncio das traseiras da Sé, chega uma senhora ao grupo, acomodando-se ao meu lado. Olhos claros, de meia idade, com poucos dentes e aspecto mal-tratado. Cruzei-lhe a pinta e reconheci-a doutros burgos: pedia moedas, na rua, numa sabedoria capitalista de quem, com educação, abordava todos os que, pela sua indiferença, a marginalizam
Eram curiosos os seus silenciosos olhares e carismáticos os sorrisos que oferecia. Colocou questões, levantou e repôs os óculos escuros, interrompeu a aula, vestindo a pele de aluna recém-chegada a um tema de que "não percebia nada". 
Despediu-se e agradeceu: pela boa-vontade da professora (uma mestre, mostrou-se) e pelo tempo que lhe faltava, entre esta e aquela moeda, este e aquele estranho, esta e aquela rua, que certamente viria a cruzar.
Enquanto centenas de doutores e caloiros, homens e mulheres medianos, velhos e novos entediados, batiam os seus "cascos" pelas ruas da mui nobre Bracara Augusta, uns olhos pedintes souberam que, em tempos remotos, uma sacerdotisa chamada Lucretia Fida ofereceu à deusa Isis algo suficientemente memorável para figurar naquela cuidada inscrição. 
A curiosa anónima queixou-se, porém, que não conseguia ver as folhas de hera que pontuavam e decoravam aquela pedra. Mal ela sabia que, dentre alunos e estranhos, tinha sido para si, mesmo em latim e com interlocutora, que aquela pedra mais havia falado.

* Título roubado ao manual de Epigrafia do Professor José D'Encarnação.

Luís Gonçalves Ferreira 

do tempo que nos falta

Acordamos com pouco tempo, comemos sem tempo, vivemos a contar o tempo que nos sobra para o ocupar com alguma coisa. Afinal, para onde nos levaria o tempo que sempre nos parece faltar?

Horas pardas

Morreu Deus. Morreu a Ciência. Morreram a Nação e a Pátria. Morreram a Liberdade e a Felicidade. Morreram a Cultura, a Fé e o Amor. 
Morreu a Filosofia.
Estamos vivos, então, de quê?

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

dois minutos

Amor, portanto, é criar rotinas.
Seguir pegadas, acompanhar passos e encontrar pontes.

Amar é, por isso, criar rotinas: é construir castelos, visitar cadeias, servir alentos.


Amar-te é, somente, amar rotinas: o segredo do beijo, o encontro do bom dia, o desejo do regresso que entardecia.

Amar é contar o tempo até à falta da tua rotina. Amar é o chegar a casa, o aproximar ao templo ou ao pensamento da carne que te cheira a falta: como do bebé que do colo tem consolo.

Nunca queiras amar quem não ama rotinas; passarás todo o teu tempo a procurar o pedaço que te faz falta, a insegurança que te conforta, a pele que te queima, o espaço que é teu sem conquistas.

Amar é, tão-só (como se só fosse sozinho), ser rotina; connosco, contigo, com todos. Amar, pelo ventre do universo e pelo estalo a leite materno, é segredar ao tempo pelo resto que falta até se ser no leito novamente.

Nunca aceites amar quem não ama rotinas.

Luís Gonçalves Ferreira 

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Um constante estado de emergência

O problema não está na possibilidade de se comprarem armas de forma fácil ou barata. O problema não reside na disponibilidade de conduzir um camião e dele fazer um tanque de guerra. A questão não se encontra com os que, por desorientação ou livre arbítrio, se deixam recrutar pelas demagogias do Estado Islâmico. A dinâmica do terrorismo está para além das ideologias religiosas, das críticas a estilos de vida, ou das barreiras físicas que os países ergam entre si. O terrorismo orienta-se pelo impacto que tem junto daqueles que prezam a vida humana como valor fundamental na condução da sociedade em direção à felicidade, à harmonia ou à justiça.

Os desvios interpretativos a respeito do terrorismo, feitos pelas classes políticas ocidentais, não devem fazer com que o nosso juízo crítico, de cidadãos ativos, se desvie do fundamental. O problema do terrorismo não tem que ver com a disponibilidade dos meios para perpetrar crimes hediondos; ou com existência de teias legais que compliquem a ação dos prevaricadores; ou com os estados de emergência que façam do Estado um ser supremo que age de fora para dentro. O terrorismo é uma fuga declarada ao normativo, ao ideal de sociedade que defendemos e, maxime, consiste num questionamento sobre o modelo de convivência social. Assim o é na França como na Etiópia, Síria, Sudão ou na China; assim o é na consciência de qualquer pessoa, livre para hierarquizar os valores comuns a todos os seus pares.

Levar o problema do terrorismo para pensamentos e discursos xenófobos, racistas, homofóbicos ou intolerantes, é seguir pelo caminho da desorientação que é o horror ou o sangue gratuito nos canais de televisão. Essas atitudes questionam, tal e o qual o terrorismo, o contrato social que assinamos com o Estado que, com a lei, as outras normatividades e os indivíduos, conduz a sociedade e os seres humanos para a felicidade.

Hollande decretou mais três meses de estado de emergência em França, após os atentados, emendando-os na data de 26 de julho, altura em terminaria um outro estado de emergência, declarado a propósito dos atentados de Paris, em novembro do ano passado. Que a intolerância não nos conduza ao absolutismo e que a liberdade se saiba entender com a segurança; que questionemos, com força e consciência, o destino do Estado-Nação, um credo tantas vezes cego como inúmeras vezes necessário; que nos preocupemos com o criminoso, onde reside o problema e, provavelmente, a sua resolução; que nos desprendamos de palavras precipitadas e odientas, que nos fazem semelhantes ao terror e afastados da paz e da felicidade que prometemos aos nossos filhos.

Façamos um enorme cordão de esperança para todos aqueles que, em França como em qualquer lado do mundo, se veem obrigados a viver estados de emergência por motivos alheios à sua vontade.

Luís Gonçalves Ferreira

domingo, 8 de maio de 2016

Perda e encontro no Templo

Tinha doze anos quando me perdi de casa e fui ter ao templo. Tinha saído para brincar, lembrando os tempos em que, com o meu primo João, na porta de casa, brindavamos o mundo com os nossos sorrisos de meninos. A minha mãe, naquele tempo, cozinhava para Isabel, sua prima, pois, cansada e velha, tinha perdido a visão e a capacidade para cuidar dos desígnios da casa. Pelos entremeios, entre as refeições e os trabalhos de fiação, a minha mãe contava-nos histórias sobre os Profetas do povo de deus. Eram tempos felizes, apesar de, pouco tempo depois, Isabel ter morrido nos braços da minha mãe (os mesmos que mais tarde viriam a suportar o peso do meu corpo morto). João, depois de uns tempos passados em nossa casa, partiu para o deserto. A minha mãe explicara-me, uma noite, que o meu primo era um precursor e, como tal, fazia coisas que só aos olhos de Deus são explicáveis.
Encontrei-me com um velho, enquanto brincava: vestia-se de preto e ostentava um nobre ceptro alto, parecido com o dos reis que ainda viriam ao mundo. Os meus olhos castanhos brilhavam refletindo a nobreza daquelas vestes, em muito diferentes dos farrapos que vestia. A vida de carpinteiro do meu pai e a roca da minha mãe não permitiam mais do que umas papas e pão azedo. "Que olhos curiosos. De onde vens?", perguntou o Sacerdote. Sem falar, ergui a cabeça, peguei-lhe na mão e seguimos para o templo. Naquele momento senti que não era mais Jesus, o Nazareno, cuja vida encaixava nas profecias de Isaías, para me transfigurar num Príncipe. 
Cruzamos as faustosas portas e recordei do velho Simeão e de Ana. Sentei-me num círculo imperfeito, entre os doutores. O velho, que me acompanhava, sentindo a firmeza dos meus passos, mantinha-se calado, deixando-se para trás. Ajoelhei-me, apresentei-me pelo meu nome, e, juntos, conversamos durante horas. Discutimos sobre o papel de Deus no mundo, a sina do nosso povo, a importância das leis do tempo e a vivência da religião entre os escritos antigos e a opressão em que vivíamos, mesmo que na nossa terra, perante o invasor estranho.
Sentia-me um rei. Depressa passou a estupefação dos Sacerdotes e rapidamente me interpelavam, perguntando-me opinião sobre este e ou aquele tema. Eles testavam-me e eu sabia. Em todos os segundos, mesmo sem perceber de onde vinha a sabedoria das minhas respostas, lembrava-me da minha mãe e do meu pai. 
Eles escondiam-me, desde sempre, a razão das maravilhas do meu corpo. Eu sabia-as, no silêncio, de cor: os meus sonhos revelaram-me o anjo do Senhor, a cena da Visitação, a misericórdia do meu Nascimento, da Circuncisão ou da Apresentação no Templo. Para mim, não eram desconhecidos Zacarias, Isabel, Gabriel, Simeão, Ana ou as pedras copiosas daquele espaço onde, agora, me encontrava com os Doutores da Lei. 
Entretanto, ia alta a conversa, ouço uma voz, aflita, correndo: "Emanuel, Emanuel?! Jesus?!". Levantei-me, arranjei a minha túnica, corri à entrada da sala onde estávamos. Cruzei o olhar com a minha mãe e com José, o meu pai. Ela, preocupada, gritou: "Como procedeste assim connosco?". Mais nada me ocorreu dizer senão um quase silêncio de um verbo eterno: "Devias saber que estava na casa do meu Pai". A minha primeira revelação messiânica terminou assim, entre as duas mãos quentes dos meus pais terrenos. 
O mundo teria de esperar dezoito anos até que me voltasse a encontrar com João, com aqueles velhos anciãos do Templo ou para que, miraculosamente, desse respostas para as quais não estava preparado. Entretanto, José morreu, durante o sono. Chorei muito a sua perda; ficamos sozinhos, no mundo. Cuidei da minha mãe até que o seu coração ficasse suficientemente pronto para aguentar tudo o que estava para vir. 

Luís Gonçalves Ferreira

domingo, 1 de maio de 2016

Chuva de Primavera

Eis-nos chegados ao fim de um ciclo. Hoje acontece um dia triplamente especial: a última das minhas irmãs casa-se; o papá celebra o aniversário; e, amanhã, acordará, com o primeiro de maio, o dia de todas as mães do mundo. Por isso, hoje gostava de celebrar, convosco, a nossa família. O catálogo magnífico de valores que fazem deste dia e destas palavras possíveis moldaram-se numa educação atenciosa ao outro e preocupada com uma vida sobre bons princípios seguindo a moral cristã.

Falar da mãe ou do pai nem sempre é fácil, porque rapidamente as lágrimas nos embaciam os olhos e a voz treme por dentro. O pai e a mãe são as unidades mais profundas de amor autêntico: é deles que retiramos as formas dos outros amores e é por eles que aprendemos a amar todas as outras pessoas que connosco se cruzam. Como se estas fossem as fórmulas matemáticas que rapidamente calculamos a cada encontro que nos acontece. 

Permitimo-nos a ser felizes sabendo que existe um porto-de-abrigo ao qual podemos voltar em todas as ocasiões das nossas vidas. Às vezes não o dizemos, especialmente por sabermos eternos; hoje queria fazer diferente e perpetuar a gratidão que sentimos por termos sido destinados ao lar que nos acolheu, ao nascimento, como quem joga as folhas à chuva.

O amor dos pais é o mais universal de todos os amores e só comparável ao que Deus, também nosso Pai, sentirá por todos nós. É um amor absoluto, preparado para a entrega e abdicação; é a capacidade para encarar estes dias, de fim de ciclo, com orgulho, sabedoria, consciência, mas também medo e até tristeza; amar é também saber despedir-se, pois do amor autêntico se espera a liberdade.

Temos pais maravilhosos, mas também familiares e amigos incríveis: é bonito ver-nos aqui juntos. A Francisca, a mamã, o papá, o vovô, as tias e os tios, os primos, e os que, por este sacramento, se cruzam com as nossas vidas. A todos, o nosso obrigado.

Márcio, queria agradecer-te em particular: como irmão, amigo e familiar. Recebe-nos na tua casa fazendo parte da nossa casa. Estou certo que do aconchego se fará ternura e do lar se farão frutos; certo estarás que há caminhos que se cruzam eternamente. 

Raquel, as coisas vulgares que há na vida não deixam saudades, só as lembranças que doem ou fazem sorrir. Dizia amiúde um poeta que a saudade é a prova de que o passado valeu a pena; sentirei sempre saudades tuas e quero continuar a senti-las. Quero vivê-las ao teu lado, continuar a contemplar a fineza do teu gesto, a delicadeza do sorriso e a candura das tuas confissões. É profundamente transformador ter uma irmã como tu. Obrigado: pela não desistência; pela consciência da diferença; pelo amor incondicional; do que dói e depois faz sorrir.

Peço palavras emprestadas: «“Olharei a tua sombra se não quiseres que te olhe a ti”, e ele respondeu: “Quero estar onde estiver a minha sombra se lá é que estiverem os teus olhos”. Amávamo-nos e dizíamos palavras como estas, não apenas por serem belas e verdadeiras, se é possível serem uma coisa e outra ao mesmo tempo, mas porque pressentíamos que o tempo das sombras estava a chegar e era preciso que começássemos a acostumar-nos, ainda juntos, à escuridão da ausência definitiva.»1

Completo dizendo que a vida é uma canção; o amor a sua pauta; a família uma nota. A saudade é nossa e de todos os dias e casou com a alegria; juntos tiveram a memória e puderam recordar momentos como este. Que continuemos a sentir a chuva a molhar-nos o rosto.

Luís Gonçalves Ferreira, 30 de abril de 2016. A propósito do casamento da minha irmã Raquel. 

1. José Saramago, Um Capítulo Para o Evangelho, 2009. 

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Círculo

O que está a acontecer neste momento, independente de leituras mais ou menos conservadores a respeito da prática constitucional, é uma ironia para com o sistema semi-parlamentarista em que vivemos. Mostra, sobretudo, que o modelo já não serve. 
Os partidos que se unem ao PS não acreditam (nem nunca acreditaram) no modelo de desenvolvimento no qual Portugal alinha desde a instauração da III República, depois do PREC. Se a situação de credo político do Bloco de Esquerda é mais confusa, porque nunca fala em combater o modelo de classes, as opções do PCP são claras para os portugueses: e deles sempre colheu respeito por uma luta contínua, pacífica e determinada, regrada por princípios. Até hoje. 
Nos cartazes que sobrevivem na rua, derivado da poluição visual de que todos os partidos fizeram refém a política, leem-se, nos do PCP, apelos à saída do euro, ao regresso do escudo, à restauração da soberania. A maioria da população acredita no projeto europeu (dos que votam, obviamente). 
A cartilha comunista não ignora a possibilidade de ser poder, sendo essa uma forma até privilegiada de o minar, corroer, preparar a eterna revolução em curso para a sociedade sem classes. O Bloco de Esquerda não. Ou pelo menos não clarifica. 
Jovem de estrutura, o Bloco substituiu o último líder à feição da ditadura do partido único: estratégia de dois para um, tamanha era a força institucional de Francisco Louçã. Perdeu-se Ana Drago, no entretanto. Substituiu-a pela demagoga Mariana Mortágua: uma cacique. Francisco Louçã continua, mas no silêncio. Catarina Martins desempenha o papel da sua vida. Isto só para analisar a rama. Por aqui me fico.
O CDS-PP de Portas fareja sempre o poder, modifica-se, e quer recuperar a glória dos tempos do início da democracia. Uma angústia e sempre desespero.
O PSD significa, em Portugal, a ideologia dominante da Europa. Refugia-se na sua história e perde-se na corrupção dos jotas, nas opções menos corretas da economia de mercado, mostrando-se incapaz de ter voz. Não o pode, por acordo internacional. 
O PS é uma aberração política: sempre o foi. Não é de esquerda, mas tem um nome de Esquerda. Permite-lhe o que assistimos neste momento e em todos os outros: está onde está o poder. Canibaliza-o, baba-se por ele. Custe o que custar. 
Visão paternalista de um país hipotecado no ego dos líderes que a vida querem salvar. Destino: construtoras ou empresas público-privadas. Sucesso arreigado ao carácter de quem executa. 
Nisto, PS como o PSD e CDS. Longe do PCP e do BE: para eles, a questão será sempre a do grande capital, dos mais ricos que esganam os mais pobres, da sociedade de classes e do modelo de desenvolvimento que se generalizou por entre os séculos. 
Os pequenos partidos ficam longe dos corredores de São Bento, neste Portugal pouco plural, cheio de viroses, onde as democracias são estreitas, pouco experimentadas e, à mínima possibilidade, postas de lado. Desde sempre que, moralmente, assenhoramos o Estado, paternalizamo-lo, deixando que entre nas nossas vidas, nos nossos negócios e até no sal do nosso pão. 
Tudo isto a que assistimos nas televisões, lemos nos jornais e revistas, ou escutamos nas rádios, é fruto da circunstância de país pequeno, sem recursos, acantonado ao papel de receptor económico e ponto de consumo. Não podemos ser mais do que isto: é a competitividade natural do homem que sufoca e se apodera de quem tem pouco.
Falamos, então, da natureza humana: dos que a aceitam - como o PSD, CDS e o PS - e dela querem retirar o lucro, e os de que a rejeitam, querendo utopicamente lutar contra ela, como o PCP e o BE. São todos necessários: os céticos e conservadores como os radicais, os pensadores de fundo, os da alternativa. 
Diálogo dos mundos: Agostinho de Hipona e Tomás de Aquino, Hobbes e Rosseau, Marxista-leninistas contra liberais, sociais democratas, democratas cristãos e neo-liberais. E, neste fundo de panela, não fazem sentido os rótulos: somos todos bichos em movimento.
Acresce o eurocentrismo: esquerdas e direitas continuam a opinar sobre o mundo do seu pódio intelectual de berço da humanidade.
Dou por mim a pensar sobre um modelo alternativo: clarifico-me e penso que a humanidade não é mais do que este ciclo de que os objetos que colocamos ao nosso serviço são exemplo. 
Moda, política, cultura, gosto, tecnologia, intelectualidade: da simplicidade ao exagero; da paz à revolta; um círculo. Somos todos círculos e deve ser por isso que tanto nos importamos com as questões da morte.

Luís Gonçalves Ferreira

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Mataram a cidade

Enjoa-me o que fizeram da política. Vejo bandeiras, enchentes, encenações partidárias. Vejo as paradas grotescas que são as arruadas, os comícios, jantares e tainadas. A "cidade" e o povo tornaram-se representados por uma máquina partidária potente, de tablóide, minada pelos caciques e os jotas, com bandeiras compradas e vontades falseadas. Todos somos disso também.
Fizeram da política um desfile de vaidades, mentiras, discursos decorados, frases feitas e chavões. Fizeram da pólis - do que é de todos - uma feira da Vandoma onde o polícia compra produto contrafeito. 
Destruíram a cidade dos Gregos, o contrato social de Rosseau, as inovações do marxismo e da democracia cristã. Reduziram tudo a pó, ao totalitarismo da enchentes, às marginalidades das grandes corporações. Dói-me ver a minha geração sem consciência política, espírito crítico, marchando como peões num xadrez minado. Absolutismos informados sem direito ao plural.
Dia 4 de outubro não vencerá o PSD/CDS, nem o PS, nem a liberdade. Dia 4 de outubro vencerá a abstenção, o jogo boys and their toys, as ideologias corporativas, a macrocefalia de Lisboa, a litoralização, a falta de abordagem acerca da justiça ou da regionalização, o silêncio sobre a renovação constitucional. 
Enquanto continuarmos sozinhos, unicamente preocupados com o jantar de borla que nos pode cair no prato, estaremos alinhados nesta falta de lucidez sobre o estado da "res publica". 
Estamos num beco sem saída com um lume quente às costas. Somos como ratos aflitos que não percebem a facilidade da saída. Magoa-me ligar a televisor em tempo de eleições: cheira-me a esgoto, Salazar ou D. João V. Bandeiras, sinais sonoros, campos de batalha. O que há de diferente?

2.º outono, Francisca

A luz dos nossos olhos celebra hoje o seu primeiro aniversário. 
Não posso conter a felicidade que sinto ao ver a Francisca crescer. É brilhante sentir que me reconhece. É espantoso perceber quando prefere o meu colo. É único vê-la em todos os olhos dos que gostam dela. 
A Francisca transformou as nossas vidas e tornou-se no maior presente que se pode receber. É amor por amor, candura por candura, fé por fé. 
A Francisca é uma luz no absoluto e mágico que a palavra significa. 
Ao seu primeiro aniversário quase caminha, diz claramente mamã e papá, é apaixonada pelo colo da avó materna, gosta de ver os "mus" e as galinhas. Sabe fazer o barulho do leão. Adora que lhe contem até dez no meio dos vestidos dos anjinhos, e fica em êxtase com as cores que vê junto dos milhares de metros de pano que a rodeiam. 
A Francisca, no seu primeiro aniversário, é um milagre vivo. Ela não sabe disso. É a ressurreição da alegria da minha mãe e o final de um Inverno longo, sentido nos corações de todos, após uma partida. 
Francisca rima com amor. Também podia ter sido Júlia ou Benedita e rimaria na mesma. É filha do Outono e os nomes são o de menos na linguagem dos afetos. 
Francisca faz de mim, todos os dias, uma pessoa mais feliz. Especialmente quando dançamos, os dois, ao colo um do outro, por entre poemas feitos de cetim.

domingo, 3 de maio de 2015


Os amores muito fortes e demasiado autênticos não precisam de grandes palavras. 
Dão mudez, sobretudo. 
Amar, por isso, é dizer pouco.
À mãe: esse infinito.

Luís Gonçalves Ferreira

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Cântico dos cânticos

Eis que me toma a noite. Aos golos, como o último whiskey que bebemos juntos, no mar. Lembro-me de tudo em ti, principalmente a saudade que já não tenho. Recordo-me do barulho que as ondas faziam no meu peito apaixonado. Os nossos corpos suavam ainda quietos, por saberem das tentações que juntos comungavam. Titãs observantes de Cartago a Roma.

Éramos como fiéis a caminho de Santiago, talvez ultrajados pela promessa de uma vida em paz. 
Recordo-me do peito flamejado que sentia. Da ardência dos olhos que torneavam as memórias de perdas e alcances que consumíamos. 
Tenho sete saudades na vida, como os gatos e como Jesus as disse na cruz. 
Três saudades já as perdi.Tenho quatro saudades sobrantes e não sei que destino dar. São quatro mortes, três vidas restantes. 
Uma vida perdi-a, se calhar, em ti. As vírgulas mergulham-me. Embato numa
memória e o dicionário cai da estante como a abóbada que ruiu na catedral. 
É abril e não há flores no meu jardim. Ainda sinto o cheiro branco das magnólias.

Luís Gonçalves Ferreira

terça-feira, 14 de abril de 2015

sobre a escrita

O poder das palavras é inquestionavelmente infinito. São o nosso maior compromisso para com os outros: fusão do planisfério da mente com o concreto dos sentidos. 
Sempre senti uma disfunção entre o painel do cérebro e a capacidade de concretização. Como se palavras fossem poucas para personificarem o que, de leve, pelos pensamentos transborda. É de um caso de deficiência muda na comunicação, ou escravatura dela, se tratasse. Digo, muitas vezes, que sinto uma prisão enorme dentro de mim próprio. Como a voz gritasse, em desespero, "salva-me", e as pernas nem do lugar conseguissem sair. Como se as emoções tivessem sido enclausuradas e uma parca tristeza em relação ao mundo se acumulasse. 
O dinheiro, o poder, o amor e os jogos de ego. A incapacidade de relacionamento e uma doença interior que cresce, como um cancro do sentir. Dizia hoje, a uma amiga, que passei de uma tristeza desiludida para uma tristeza calada. Como se o desintegrar absoluto do mundo tivesse conquistado o seu maior pódio: o da força interior dos seres mudos; dos acomodados que em cima de muitos se amontoam; da soma dos iguais. 
Venho no automóvel e a poesia cresce. Não há nada mais romântico do que aquilo que escrevemos sem violarmos as barreiras do som. Entre o primeiro acto criativo e a exteriorização há palavras que se perdem para sempre. Há outras mais que ficam e eternizam. Não tenho noção qual dos valores é o maior.
Escrever submerso é impossível: que lamento!

Cheiros Autênticos

E, desde então, iam-se morrendo constantemente. A cada traço que riscavam, às coincidências das quais se afastavam, e das palavras que jamais diziam. Sabiam que se amavam e negavam-no, porque a ferida rasgada é mais forte do que o poder de todas as coisas vividas. Eram, entre os dois, maiores do que as suas partes somadas. Chamaram-nos de amor, mas poderia ter sido outra coisa qualquer. Às vezes parecia uma guerra, outras um funeral, mas houve momentos em que a felicidade era tamanha e os gregos choravam, os romanos gritavam às tropas e os modernos - eclipses da ciência - renovavam os votos. Eram contemporâneos: intensos, do amor romântico; poetas lúcidos e confusos da nova ciência feita deus. Houve dias em que eram batalhas e outros autênticos estranhos em terraços paralelos. 
Vão quatro anos e o aniversário deve ser por estes dias. 
Amar levanta a pele, em todos os sentidos, mas não solda. Soldar-se faz-se sozinho. Ainda dói, aqui no peito, e tresanda a morte. Poder-se-ia chamar, afinal, eternidade.

Luís Gonçalves Ferreira

sexta-feira, 6 de março de 2015

XPTO

Lembro-me de, em menino, perguntar à minha mãe pela razão de Jesus estar crucificado, no centro das Igrejas, e não em Glória e ressurreição. A minha mãe dizia-me que o sofrimento é uma dádiva, uma bênção, e que nos renova, a partir dali. Jesus - o Cristo - era morto para nos recordar disso mesmo.
As palavras não eram exatamente estas, e eu não percebia nada do que a minha mãe me queria dizer. Como era possível que o sofrimento fosse, numa essência tão pesada, uma coisa boa? Não via aquelas palavras como não as entendi por um bom número de anos. 
Hoje é diferente e ter "luz" (no sentido mais ou menos espiritual do termo) é muito provavelmente isto de se perceber a vida de uma perspetiva diferente, segundo os mesmos olhos.
Estive a ver um episódio de uma série que fez recordar a morte da minha avó. Revivi o peso da partida, os tempos difíceis que se seguiram, e as memórias que fui colhendo de forma mais ou menos tímida. Mudou muita coisa na minha vida, no entretanto, e ainda bem que assim foi: há esperança em cada final.
Quando os poetas falam em eternidade e Glória, do início eterno que a morte significa, estavam a falar de uma imensa posteridade que fica de nós na vida dos outros. As pessoas são eternamente vivas nos finais que nos condicionam e nas linhas que nos inquinam. Não há nada de espiritual na eternidade: afinal a memória é carnal, deus é o medo de estarmos sós, e eu chamo-me Luís.

Luís Gonçalves Ferreira

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Ler e amar. Uma questão de escolha.

Há uma analogia profundamente surpreendente entre os livros e as pessoas cujos destinos se cruzam com o nosso.
Escolhemos um livro, antes de mais, pela capa: o aspecto pictórico que nos chama a atenção. Somos atraímos pela letra, as cores, ou até por uma palavra chamativa exclamada aos nossos olhos. Igual à pessoa que nos chama atenção no meio da rua, do nada.
Aproximamos e começamos uma certa sedução de convencimento. O cheiro conta, a par da textura do papel. Vemos a contra-capa: o resumo. Se não conhecemos o autor, perguntamos o nome e até o que faz da vida. As biografias são sempre importantes, nos livros como nas pessoas. Uma página à sorte é aberta para absorver o estilo da escrita; a forma como flui naturalmente; um certo talento que nos conquista. Será o equivalente à linguagem corporal dos humanos ou ao sorriso, para os que, como eu, são por ele fixados.
Levar o livro para casa é o acto mais íntimo do processo de se possuir algo. Tudo tem um preço, como nos livros. E tê-los é dividir estante com outras paixões, memórias, e títulos igualmente fascinantes. Serão os modelos, as condicionantes, as comparações que fazemos todos os dias em relação a tudo, mas especialmente no que ao amor diz respeito. [Este sexo é melhor do que aquele, aquele cérebro é mais excitante do que este: tipo resumos de vantagens e desvantagens (uma racionalização das emoções - como se mandássemos em alguma coisa)].
O livro pode até aguardar pela sua vez. Porém, há daqueles que passam, de imediato, à frente de todos os outros: consumo apaixonado, talvez por tanto querer aprender; ou tanta urgência sentir daquele conteúdo. [Sou de paixões rápidas pelo fogo que arde em mim.]
Agora escolhido e assumido, o livro é aberto, pelo início, como a vida se começa no nascimento. É a prova dos nove dos pré-conceitos da aparência. Nos livros, como nas pessoas, há que saber desistir a tempo. Abdicar é não arriscar a leitura inteira de uma vida e não alimentar expectativas feitas por (des)ilusões. Desistir é um sinal de virtude e um respeito. Abandoná-lo será, também, dar ao livro, como às pessoas, uma nova oportunidade. Fazer ferida, ao insistir, pode arruinar tudo, mas desistir antes do tempo pode-nos fazer perder a maior narrativa do mundo.
Escolher, na vida, é como seleccionar um livro numa estante. Até quando seleccionamos dos livros que já temos em casa e colocamos a esperar por nós. Após anos, talvez a consciência volte a despertar às letras bonitas, ao autor interessante, ao estilo entusiasmante. Talvez se cative novamente pelo tema. Talvez se conclua o primeiro capítulo; se emocione no segundo; se somem todas as letras e até se anote para a posteridade.
Ler, como amar, é um dos mais belos jogos de sorte. Há quem leia um livro na vida e não precise de mais. Há quem coleccione leituras rápidas, semanais, ou até de duração mais curta que essa: devoradores de livros. Há quem escolha e se deixe levar pelo sabor da vontade. É certo que todos, nos livros e no amor, procuramos resposta sobre a nossas inquietudes, desejos, anseios e faltas.
Ler é, como amar, viver. A vida é curta de mais para escolhas erradas e longa o suficiente para poder regressar.

Luís Gonçalves Ferreira

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

"Sou lúcido. Merda!"

Às vezes perguntam-me porque pareço tão triste. Lá respondo, timidamente como quem justifica a sua alma, que ser lúcido - como optei ser - implica estar triste, ou simplesmente condicionado na alegria. É uma resposta refúgio; uma fuga.
Estar triste não é ser triste. Estar triste não é ser infeliz. Estar triste é estar fendado, machucado, e penetrado pelas perdas que sofri. Estar triste é um ante-aviso, é uma proteção. Ser feliz é saber isto tudo e mesmo assim ter esperança, e sentir felicidade. E estar triste significa barreiras e protecções, e placas de pré-aviso de dano e-iminente.
Estou triste, mas sou feliz. Cada vez mais isolado, na proporção. Como quando era pequeno e queria brincar aos mortos.
Há dias que estou triste e é quando procuro escrever. Quando se sente felicidade o mais urgente é vivê-la e não escrever sobre ela. Quando se está triste, o mais urgente é estar só, virado para dentro, e sentir: escrevendo.
É impossível não ser triste quando se é lúcido. "Sou lúcido. Merda!", já dizia Pessoa. Não há pessoa mais certa nesta estória toda.
Amargura e raiva e medo. Quantos são os anos e as perdas que me fizeram lúcido? Precisarei do seu dobro para me reverter em inocência. Dos extremos se converte a média. Que assim seja, Senhor.

Luís Gonçalves Ferreira

sábado, 24 de janeiro de 2015

"o teu rosto transformou-se na noite interminável que atravessa cada tarde, cada tarde, cada tarde interminável.
o rio de fumo que levava o teu nome para as estrelas desapareceu dentro de dentro de dentro da minha tristeza.
e o teu rosto era tudo o que tinha. e o teu nome era tudo o que tinha. tu eras tudo. tudo. e tudo é agora mais do que tudo.

não imaginas, ninguém imagina, como o meu peito ficou vazio depois de partires. o teu sorriso existia ainda dentro de mim, mas já não eras tu. era a tua imagem.
não penso para onde foste porque o meu peito, sem ti, fica atravessado por lâminas. tenho um silêncio dentro. toco os sítios onde estiveram as tuas mãos. sinto o que sentiste.
fico acordado de noite, com a esperança secreta de que possas regressar.

não me arrependo das horas que perdi a esperar-te quando ainda havia a esperança. a esperança que havia quando, a esperar-te, perdi horas de que não me arrependo.
um instante na memória de chegares é mais valioso do que jardins. do que montanhas. do que anos de tempo.
arrependo-me de ficar ao sol, de sorrir, de esquecer que devagar passam os dias. os dias passam devagar, esquecendo-se de sorrir ao sol e de ficar onde me arrependo.

a tua ausência é, em cada momento, a tua ausência. não esqueço que os teus lábios existem longe de mim. aqui há casas vazias. há cidades desertas. há lugares.
mas eu lembro que o tempo é outra coisa, e tenho tanta pena de perder um instante dos teus cabelos.
aqui há palavras. há a tua ausência. há o medo sem os teus lábios, sem os teus cabelos. fecho os olhos para te ver e para não chorar."

- José Luís Peixoto, A Casa, A Escuridão, pp. 45-48

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Erotismo da Sombra

Entretanto, ele decidiu desistir. Arrumou as armas, limpou os escudos, e as botas resistentes que tanto o acompanharam. Os livros de estratégia, as filosofias de cabeceira, os mapas gigantes que colocava na mesa, a casa cena de filme que montava. As ruas ficaram vazias, as estradas semelhantes, e até os olhos ficaram diferentes. Era talvez uma reforma: deixou de me ligar, de dizer que me queria bem, até de fazer projetos. O amor morreu quando arrumou a última espada na bainha. 
Como as convicções políticas, o amor é uma batalha, um desafio, um dogma existencial do qual não se pode desistir. É preciso vendar os olhos e seguir os impulsos cardíacos. Gritar às tropas com o peito de um líder, sem tremer a voz, fazendo soar as trombetas, e marchar. 
Seguir em frente. 
O amor tem mapas, espadas, e é uma guerra. O amor é um sem-número de coisas, tantas quantas as histórias onde heróis e princesas são gente normal.
Arrumei a cota e a coifa. Pousei a espada. Do outro lado, as armas, que agora tombam as candeias da amargura, foram sangue. Somos tão-somente eternos nas quatro linhas que desenham a nossa sombra.

Luís Gonçalves Ferreira 

A (des)humanidade dos humanos

A humanidade é feita de homens e mulheres, e parece que nos esquecemos disso. Vivemos da crítica, da mentira, dos falseamento, do sujo do não-amor optado. Fugimos das pessoas escondendo-nos noutras pessoas. 
A humanidade são os seres humanos, essas mulheres e esses homens com quem partilhamos o dia-a-dia. E somos nós próprios. Oiço críticas à globalidade dos seres humanos que parecem loucas e não lúcidas a esta realidade. Os humanos são egoístas, hipócritas e mesquinhos. Os filósofos deixaram de pensar o amor e nós, como global humano, sentimental, não valorizamos isso - nem pensamos na Filosofia. 
Não podemos ser frágeis, nem defeituosos nem tão-só humanos. A Humanidade é então feita de quê? Homens e mulheres que não são homens nem mulheres: são coisas. Perfeitas, bonitas, trabalhadas, segundo os princípios do capital, do mercado e da economia e da acumulação. Até a palavra Humanidade é desumana: um todo que nem jus faz ao mais pequeno pedaço de terra que podemos habitar. 
Ser humano é, afinal, uma mentira que contamos a nós próprios: nenhum coletivo é individualmente tão auto-centrado. Somos nós e o que os outros esperam de nós. 
O sofrimento é o novo pecado celestial: que algum deus nos dê uma segunda oportunidade. Não há nada de errado em estar triste, amargurado ou revoltado. Não há nada de errado em partir os cacos no chão e pegá-los com o tempo que precisamos. Não existe nada de errado em pararmos a olhar o mundo. Somos afinal nós quem vai erguer o seu rabo, dar laço às pernas, e sobreviver. Não passamos de uns animais sentimentais fugindo do que nos coloca, perigosamente, no final da cadeia alimentar.

Luís Gonçalves Ferreira 

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Dia 1 d.T.

Saí da universidade, após mais um teste da nova-caminhada a que dei início, desde Outubro. O curso, até agora, tem existido basicamente contigo. Após cada vitória, eras tu a primeiríssima pessoa a quem ligava como era eu a primeira instância a que recorrias à saída do trabalho; ou até o depósito das inseguranças, das coisas diárias, e dos projetos. Foste tu a minha força, mas hoje foi diferente.
A jornada foi curta, ao contrário das coisas que nossas projetei. Criamos um compromisso de almas, de companheiros. Meio que nos sugávamos um ao outro: meio que de uma forma temida meio que de uma forma derradeira. Se calhar, meio que de uma forma natural.
Vim a correr para casa dos meus pais, e procurei a unidade mais básica do amor. Não queria voltar para aquela "minha casa" que és tu. Nem queria encontrar-te em todos os cantos para onde fosse ou olhasse. Não queria, enquanto fujo. Hoje não foi diferente.
Sobra-me a vergonha, a dor e uma espécie de anestesia que de tarde me fez pensar no fácil que poderia afinal ser. A noite chegou e trouxe-te na brisa. 
Hoje começa mais uma etapa de solda e cicatrização, onde a memória mais antiga que tenho se encontra ao lado da tua, num processo ainda não fechado.
Hoje é dia um depois de ti. Que não seja muito o tempo que aí vem.

Luís Gonçalves Ferreira

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Je suis Charlie

Há pessoas que deviam ficar com a boca calada, principalmente em momentos de profunda reflexão, especialmente quando se envolvem mortes e pistolas cheias de sangue. Para a morte em massa, bárbara, terrorista, primária, não há educação, nem religião, nem cultura, nem alternativa. Não há nuance, nem classe política, nem partidária, nem sequer profissional. Para o terrorismo, seja ele ideologicamente cristão ou muçulmano ou judeu, não há segunda nem terceira via. Há uma resposta: o repúdio absoluto. Um repúdio absoluto das ideologias igualmente básicas e primárias como aquelas que vos enchem as bocas para atacar todas as pessoas muçulmanas pela atitude de três. Não foram todos os muçulmanos que os mataram, como os doze mortos não representam o todo que o ataque quis atingir. Não queiram tomar a parte pelo todo, mas queiram ser um todo pelos valores que nos fazem plurais.
Pela democracia, a liberdade, o respeito, pela tolerância: Je suis Charlie.

Luís Gonçalves Ferreira

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Amar demais.

"Quando amar significa sofrer, estamos a amar demais. 
Quando grande parte de nossa conversa com amigas íntimas é sobre ele, os problemas, os pensamentos, os sentimentos dele — e aproximadamente todas as nossas frases se iniciam com "ele...", estamos a amar demais. 
Quando desculpamos a sua melancolia, o mau humor, indiferença ou desprezo como problemas devidos a uma infância infeliz, e quando tentamos tornar-nos a sua terapeuta, estamos a amar demais.
Quando lemos um livro de auto-ajuda e sublinhamos todas as passagens que pensamos que irão ajudá-lo, estamos a amar demais. 
Quando não gostamos de muitas das suas características, valores e comportamentos básicos, mas toleramos pacientemente, achando que, se ao menos formos atraentes e amáveis o bastante, ele irá se modificar por nós, estamos a amar demais. 
Quando o relacionamento coloca em risco o nosso bem-estar emocional, e talvez até nossa saúde e segurança física, estamos definitivamente a amar demais. 
Apesar de toda a dor e insatisfação, amar demais é uma experiência tão comum para muitas mulheres, que quase acreditamos que é assim que os relacionamentos íntimos devem ser. A maioria de nós amou demais ao menos uma vez, e, para muitas, é um tema repetido na vida. Algumas tornamo-nos tão obcecadas pelo nosso parceiro e pelo nosso relacionamento, que quase não somos capazes de agir."
- Robin Norwood, in Mulheres que Amam Demais (prefácio)

sábado, 29 de novembro de 2014

À Francisca

A pequena Francisca tem pouco mais de dois meses, mas fala por uma vida inteira: chegou sem pedir a ninguém, trouxe alegria e um espírito puro de inocência. Olho para ela e lembro-me como é maravilhosa a existência humana e como é gratificante estar aqui, neste momento. Os olhos pequeninos, as mãos que não agarram nada, e um sorriso que conquista o mundo. Nada é pensado, ou intelectualizado, simplesmente congratula, da forma mais pura de quem não sabe nomes, nem pré-conceitos, mesmo dos que amam uma existência tão minúscula, mas tão poderosa.

Nunca tinha acompanhado um crescimento humano de perto como tenho acompanhado o da Francisca. Naturalmente por que agora a minha consciência se faz desperta a um conjunto de circunstâncias novas, e quantifica os pormenores de uma outra forma. É produto do próprio crescimento: do meu, através dela. E dela através daqueles que a observam. Os laços que criamos ao longo da vida definem-nos: ela já é nossa e nós dela.

Os bebés ridicularizam o comportamento humano, fazendo-os escorregar no cliché sem se dar conta. Nada há mais amoroso do que isso: o da máscara cair, da rigidez das expressões se tornar flácida por efeito dos sentimentos. Todos falam como se ela percebesse tudo o que se se lhe diz, ou faz. Por certo não sabe, mas também é certo que já o sente. Provavelmente, precisa de o sentir. De um fase inicial de carência física a um planisfério de dependência emocional: nascemos afinal imaturos, imperfeitos, e carentes. E assim, por entre a vida, nos iremos manter. A Francisca vincula os pais, depois a família, para a seguir fazer amigos, depois namorados, para a seguir aprofundar relações, onde conhecerá o que gosta de fazer, quem prefere amar e aquilo que realmente a engrandece. Aos 24, ela tornou-me melhor pessoa, nesta posição de quase-inteira-observação a que me devotei.

A Francisca já é um brilho sem igual, mas, também, um brilho de entre muitos: a vida dá mais vida a quem dela partilha. A vida é um milagre, não no sentido meta-físico, ou irreal, mas na transformação imensa que significa. Energia que nos transforma e que, intacta, se soma desde há meses a esta parte, em mim como em todos os outros que dela gostam. À minha irmã, obviamente, por se ter tornado ainda mais bonita (a beleza afinal não se esgota), e, em especial, à minha mãe, por ter literalmente renascido (faz-me lembrar de quando a vi a saltar à corda). De mim, só sei da emoção ao observar, em lágrima felizes, os pequenos gestos que a farão futuro. 

Luís Gonçalves Ferreira

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Guião aberto

Era perto das 11 e o relógio dizia pelo final da aula. Negociei, junto da professora, os pormenores de uma reposição. Dei-me ao caminho para casa. Ponderei, no entretanto, estudar na biblioteca ou até na livraria do centro da cidade. Fiquei-me pela última opção: a da preguiça, como sempre. Chave que roda o automóvel, automóvel que se envolve com a estrada, caminho que termina aqui. Aqui - o local onde me encontro, especialmente quando estou sozinho, por onde me partilhei contigo. 
- "Tenho que comprar pão", pensei. "Mas provavelmente não tenho dinheiro. Faço-o depois", continuei. 
As botas que tinha apertavam-me (são novas e não se encaixaram ao pé). Descalcei-as, encostando-as a um canto, adiei o lanche da manhã mais uns minutos. Actualizei-me nas redes sociais, vi os e-mails, fitei os apontamentos do exame de quinta. Desviei o olhar e procrastinei. Até a ida ao pão. Mais uns minutos... Lembrei-me: "Tenho uma multa para pagar, junto da fatura atrasada da água!". Fiz um post-it com os códigos de pagamento (não gosto de andar com papeis na mão). Peguei na carteira, conferi os trocos, amarrei nas chaves que encontram a porta.
Saí.
Fui ao banco. Era talvez meio-dia. Passava uma hora dos planos iniciais dentro de um dia já de si atípico. Entro no cheiro a dinheiro e percebo uma cara conhecida. Era a tua irmã. Levantou-se rapidamente e pensei que não me fosse cumprimentar. Enganei-me: simpática, rasga um sorriso tímido, em certa medida magoado, dirige-se a mim, no meio de dois beijos. Perguntou-me se estava tudo bem e respondi-lhe "Sim. E contigo?". É este o pré-forma do encontro, sem querer saber verdadeiramente a resposta. Foi-se logo embora, junto do marido (nunca o tinha visto). Ali, morreram mil perguntas por fazer. A principal seria saber de ti. 
Isto do relógio tem imensos versos por escrever. Poderia ter saído mais cedo, ou mais tarde, e nem a encontrar. Poderia ter ido primeiro ao pão, depois ao banco, ou até a outro banco. Mas não: foi assim. Fico sempre com a sensação de que a humanidade é uma história em guião aberto. De entre as perguntas, as respostas, as inquisições sobre o humano, o divino, o trauma e a satisfação, resta-me saber como estás.

Luís Gonçalves Ferreira

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Barreiras invisíveis

Procurei por toda a literatura que me define ao tentar encontrar "a" frase para este preciso momento. Falhou Pessoa e até Saramago. Kafka não me acrescenta nada e Miguel Esteves Cardoso está mudo. Inês Pedrosa esgotou-se em nenhum aconselhamento. Estou perdido e fazes-me falta.
Parti agora para a música: Antony & The Johnsons tem a sua sempiterna Hope There's Someone - de tanto encaixar não serve mais (ferida que roça em si mesma). Tenho uma fenda no coração, entretanto. Ela não fecha nem dá segurança de poder curar-se. Segui agora em frente e visito todas as músicas que já me emocionaram. Espera, afinal, ainda existe uma que serve sempre tudo nos últimos tempos! Não... o buraco continua por se emendar. Não há salvação.
Resgato-me agora aos pensamentos: às verdades universais que contei a mim mesmo para fugir de todas as fossas em mim abertas. A céu aberto. Fiquei a céu aberto. Morada oculta, escoltada, acorrentada. Magoada. Das pseudo-psicologias do sentir, das meta-críticas à pós-modernidade egoísta, escrava, errante, continuamente a não querer sentir. A fugir do sentir. Esbarro numa outra conversa, ao canto da sala dos dogmas. O espelho, calado, diz-me tudo. E os contornos das maçãs do rosto, do estilo diferente, dos óculos de massa e os meus artifícios. Onde estão as minhas cicatrizes? Uma luz pisca, então, um pouco abaixo, como nos filmes franceses que tenho visto ultimamente. 
Dói-me o sentir. Dói-me ferozmente. Dói tanto que não sei nada. Esta confusão agora abate-me o peito. O permanecer da fuga em frente a cada dia que somo. Fiz-me um errante. Um errante que se auto-narra em epopeias terríveis, fustigado nos sofrimentos, mas que vive. Pele a dentro: parece que me roubaram os sonhos. 
Há uma casa, lá longe, e lá me senti seguro. Destruída aquela Alexandria de mim, ficaram-me os cacos. O manuscrito é horrível e os livros estão queimados. Vou encerrar-me e dizer que volto mais tarde. Até lá, interdito-me com barreiras invisíveis.

Luís Gonçalves Ferreira

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Crónica de um deus revoltado

O meu nome é Deus. Já fui preto, branco, amarelo e afins. Fui-o à vossa imagem e à semelhança das coisas que vos dizem respeito. Quiseram que fosse protetor do dinheiro, da guerra, do amor, sexo e da fortuna. Fui Rei dos Reis e Luz da Luz. Deus verdadeiro, Deus verdadeiro. Justifiquei poder e fracasso. Fui quase sempre humano: ora cabeça de gato, ora fronte de elefante. O meu nome é Deus e sou como vós, por que vós assim o quiseste.
O meu nome é Deus e dei-vos santos em troca de altares. Ofereci-vos proteção em horas de aflição e fui justificação máxima em horas de Glória. Vós sois, afinal, inúteis: é a mim que quereis chegar. Deram-me tronos e logo os tiraram, querendo que do vosso poder carnal de alguma coisa de mim tivesse. Dei-vos um filho, até. Ou vários. Casei com prostitutas, deusas e pari semi-deuses e deuses completos: vocês alegravam-se quando algo de mim podiam ter. Dei-vos bastardos como autênticos, e dos reis que vos ofereci glorificam-lhes a genética. Construí impérios nas vossas mãos, trocaram-me oferendas em portas de templos, dentro deles como fora. Ergueram-me janelas e fecharam-nas ao tentarem encontrar-me 
Reinterpretaram-me diversas vezes. Fui a fonte da vossa angústia e desconfiança, até desculpa pelos vossos crimes desumanos. Como ousaram usar-me como álibi? A culpa é por certo minha que vos criei: imperfeitos, capazes, cerebrais, e livres. Tão livres que vos capacitei para me escolherem a forma, a substância e a ruptura da vossa consciência. 
Sou um homem, como vós. Fechado num cárcere. Há dias que me revolto e outros em que vos uso: como peões. Rio-me sozinho, aqui, fechado. De vós, das vossas imagens e figuras ridículas de seres pseudo-auto-determinados: são todos iguais. Uns fantoches que só os meus Gregos faziam melhor. Aprendi com eles a rir de vós. 
Sou um homem. Preso. Escravo das vontades do vosso destino. Sou um homem e nunca amei. Fui amado, ou odiado na leve fronteira, por todos vós. Sou uma jaula de vontades humanas acostumada ao fracasso. 
Ser deus é difícil e vocês não percebem isso, seus idolatradores!

Luís Gonçalves Ferreira

domingo, 21 de setembro de 2014

Júlia

É este o Pretérito Mais Que Perfeito que nos traz, hoje, aqui, a celebrar: Júlia. 

Conhecemos uma outra, há uns anos, e dela jamais esquecemos. Forte, determinada, líder nata, avó-coragem, mãe. Sobretudo, mãe. Deixou-nos da sua presença física mas ficou a sua voz, a estada, o carisma. Às vezes acho que ainda sinto o seu cheiro. Ela é vezes sem conta recordada. Nunca esquecida: uma funcionária que a diz, um cliente que a dita, uma conversa em família que a recorda. Nunca te vamos esquecer. E este não-esquecimento é a prova que a partilha e o amor são a tatuagem mais profunda que podemos rasgar no coração dos outros. É esta a mensagem que queríamos partilhar convosco.

Todos estes adjetivos, pronomes, substantivos, rimam contigo, Júlia. Agora para ti, Júlia-irmã, Júlia-filha, Júlia-amiga. És forte, determinada, líder-nata, irmã-coragem, e irás ser, tenho a certeza, mãe. Sobretudo, mãe. Como irmã mais velha que és, também soubeste ensinar-me coisas, disciplinar-me noutras, e apontar-me defeitos, tanto quantas as virtudes pelas quais os teus olhos brilham quando no silêncio sei que me escutas. Disseste-me quando estive certo, errado, e sei que estarás sempre na primeira fila dos meus e dos desafios da tua família. Estamos hoje, aqui, felizes, contigo, a ver-te. Da primeira fila. Deixa-me dizer-te que estás linda. Incrivelmente bonita, como só os teus olhos sabem estar. Não escrevi isto hoje, mas quando o escrevi já sabia que estarias linda. Por que os meus olhos não te veem de outra forma. A ti como à Daniela ou à Raquel. Ou como me ensinaram a ver a todos os membros da nossa família. É o orgulho desta família que queria deixar hoje aqui saliente. O meu orgulho em ti e a minha felicidade imensa de poder partilhar este dia contigo.

Obrigado pela irmã, pessoa e pela profissional que vi e verei seres. E a ti, Xavier, sê bem-vindo. Há sempre lugar para mais um nesta mesa em que nos sentamos, todos, desde sempre. É esse o legado que nos ensinaram e esse é o legado que levamos em diante: há sempre lugar para mais um. 

Resta-nos agradecer a Deus, pela graça que nos deu, e por nos deixar estar lúcidos para desta dádiva recordar. Que nos dê saúde, ânimo, confiança, e que a Ele saibamos sempre dar o que de melhor sabemos e podemos. Que não nos faltem as forças, e vós também, Júlia e Xavier, na vossa família nuclear que hoje conhece a luz. 

O Mistério da Vida tem curvas, obstáculos e desafios. Tudo que é nada quando uma nuvem de graça nos atravessa como neste momento. 

O Senhor é bom pastor e nada nos faltará. O Senhor é bom pastor e nada te faltará, Julinha. 

Obrigado, do fundo do coração.

Luís Gonçalves Ferreira
Lido na celebração do casamento da minha irmã, no dia 20 de Setembro de 2014

sábado, 16 de agosto de 2014

Apontamento sobre a felicidade

Por que nem só a tristeza é poética: cheguei à conclusão que tenho uma vida bonita. Agora, de repente, ao chegar a casa. E era só este o apontamento que queria deixar escrito. A minha vida é bonita. Espero que a lucidez possa sempre reconhecer, no futuro, a mesma beleza. Será a felicidade algo tão simples como é senti-la sem motivo aparente?

Luís Gonçalves Ferreira

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Despedidas

Desejei por muitos dias que estivesses mais longe. Especialmente quando te encontrava em todos os locais a que ia e apenas queria fugir de ti. Ainda chorava em cada fotografia que visse tua, perguntava-me o que estarias a fazer, a sentir, até onde eu poderia estar, em ti. Esperei para que estivesses longe. Longe o bastante para que todos os sentimentos fossem menores, ou não tão imediatos. Ou para que todos fossem diferentes daquilo que eram. Para que o sofrimento vindo do teu cheiro deixasse de existir. Ou para que a metamorfose esquecida do inverso não fosse pensada. Talvez só te quisesse perto, junto a mim, e tão-só me achava fraco para não suportar mais uma perda. Mais um pedaço de ti que desses para depois roubar. Questionei-me tantas vezes e o silêncio era um brinde. Uma antítese. 

Passou muito tempo desde então. Estive com outras pessoas, mais do que as que queria. Mais do que aquelas que desejei. Apenas procurei um canto para me esconder, encostar e finalmente chegar ao sítio que achava merecer. Mas não. Foram dias e noites, e não. Não chegavas com outro nome, nem com outro rosto, nem com outra voz. Preparei quartos e casas, e desarrumei-os algum tempo depois. Dispus peças em teu nome e desfiz altares também. Usei pulseiras, imprimi fotografias, criei hábitos. Tentei ser parecido contigo e depois desconstruí para me achar eu, novamente. Há locais que têm o teu nome, o teu sabor e a tua textura. Há fragmentos que esqueci.

Houve uma altura em tudo faria para estar mais perto. Entretanto, a ferida foi fechando, aos poucos, lambida com cuidado para não voltar a abrir. Foi o cansaço, a desilusão, e uma fuga em frente que quanto mais adiante ia mais solene estava. Hoje és o amor da minha vida, com tudo o que tens direito. À pureza, ao singelo, à saudade e às memórias. Finas flores que nasceram na minha pele.

Sei que estás mais longe, com o certo de que o local nunca foi o nosso problema. Encontrei-te em locais improváveis e desencontrei-me nos prováveis. Esqueci-te quando te lembravas de mim e lembrei-me de ti quando nem existia para ti. Fomos e deixamos de ser, continuando a sê-lo, na substância, a nós voltando quando o acaso pediu. Espero-te em breve. No breve que continua a desconhecer tempos e espaços. No breve que é eterno.

Luís Gonçalves Ferreira